Análises

A sociedade à frente da restauração da Mata Atlântica

Na Reserva Ecológica de Guapiaçu, ou simplesmente, REGUA, restauração de ecossistemas e reintrodução de espécies fazem parte da história do local, administrado por uma ONG

Aline Damasceno de Azevedo·Nicholas Locke·
24 de março de 2022·2 anos atrás

Em 1907, meu tataravô, Hilmar Werner adquiriu a área batizada de Fazenda do Carmo, na região serrana do Rio de Janeiro. Na época, mais de um século atrás, a ideia que meu antepassado tinha sobre o valor dessa área era para abertura de pasto e retirada das madeiras de maior valor – uma visão compartilhada por tantos outros em seu tempo, que puseram a Mata Atlântica abaixo sem hesitação. Hoje, 104 anos, algumas gerações e muitas transformações depois, a floresta ganha uma nova chance sobre os morros da região, agora convertida na Reserva Ecológica de Guapiaçu, mais conhecida simplesmente como REGUA.

Localizada a duas horas do Rio de Janeiro, no município de Cachoeiras de Macacu, a REGUA foi fundada oficialmente como uma ONG ambientalista em 2001. Sua missão institucional é preservar esse grande remanescente florestal que sobreviveu aos ciclos econômicos da região, aos pés das escarpas montanhosas da Serra do Mar, e com alta biodiversidade.

Atualmente, a REGUA possui uma área total de 7.559 hectares, com 75% de sobreposição com o Parque Estadual dos Três Picos (criado posteriormente, em 2002), maior Unidade de Conservação estadual; e 10% estabelecida como Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), uma unidade de conservação de gestão privada.

O Brasil está localizado em um dos “hotspots” mundiais prioritários para a conservação devido ao seu alto grau de endemismo (espécies que só ocorrem aqui) e de distribuição de fauna e flora, ambos sob forte pressão antrópica. E a Mata Atlântica, apesar de reduzida a um quarto da sua cobertura original nos últimos séculos, continua sendo uma importante área na elaboração de projetos, esforços e políticas de conservação globais, e reconhecida pelas autoridades mundiais em meio ambiente como prioritária nos programas de conservação e restauração.

A própria área onde é hoje a Reserva Ecológica vivenciou inúmeras transformações nos últimos séculos. Desde o desmatamento em si, que começou junto com a ocupação da região, no fim do século XIV, até o desvio de rios, formação de açudes e o consequente desaparecimento das áreas alagadas e de brejo típicas da região.

Foto antiga da área da fazenda onde hoje é a REGUA. Acervo Pessoal

Nesse contexto, a REGUA conseguiu “dar o pontapé inicial” na restauração florestal e se tornar uma referência local através da reversão da drenagem, para recriar as áreas alagadas que existiam originalmente e que são um habitat para diversas espécies; e do plantio de mudas nativas a partir de sementes coletadas nas florestas próximas para recomposição florestal. 

Para aumentar a área protegida e ganhar escala na restauração, desde 2001 a REGUA vem adquirindo tanto fragmentos florestais remanescentes quanto áreas de pastagens degradadas para recuperação por meio de reflorestamento. A partir da conversão de áreas degradadas, as ilhas de fragmentos florestais aos poucos se conectam e criam-se grandes corredores ecológicos para garantir o fluxo genético das espécies encontradas apenas nesses habitats.

Hoje, os pilares do trabalho de conservação da REGUA são a aquisição e monitoramento de áreas para preservação, o incentivo à pesquisa científica, a reintrodução de espécies da fauna e flora nativas, a restauração florestal, o desenvolvimento de programas de educação ambiental e o turismo sustentável; sempre com foco na conservação da bacia hidrográfica Guapiaçu.

Conservação e recuperação

O rio Guapiaçu nasce em terras pertencentes e protegidas pela REGUA, nas florestas montanas de altitude da Serra dos Órgãos, uma faixa crucial da Serra do Mar, que atinge mais de 2.300 m de altitude, e que se estende na direção sudeste por 100 km, até a Baía de Guanabara e a cidade do Rio de Janeiro. O rio Guapiaçu, junto ao rio Macacu, forma uma das seis bacias que deságuam na Baía de Guanabara, e que ajudam a abastecer o Sistema Imunana-Laranjal  que fornece água potável para mais de 2,5 milhões de habitantes da região Metropolitana leste do Rio de Janeiro. Por esse motivo, a bacia hidrográfica Guapi-Macacu é estrategicamente prioritária na sua conservação.

A bacia do Rio Guapiaçu também serve de refúgio para flora nativa e abriga espécies ameaçadas de extinção, como o jequitibá-rosa (Cariniana legalis), considerada a maior espécie arbórea da Mata Atlântica;

Embora grande parte das florestas em pé estejam dentro dos limites do Parque Nacional da Serra dos Órgãos e do Parque Estadual dos Três Picos, parte significativa dessas terras permanecem em propriedades particulares. Isso não tem evitado, entretanto, a ocupação irregular de algumas áreas, assim como a caça e outros usos extrativistas da floresta que causam desequilíbrio ecológico.

Historicamente, a fragmentação do habitat e a caça reduziram muitas populações de grandes mamíferos e aves na Mata Atlântica. Na REGUA – e na floresta adjacente ao Parque Estadual dos Três Picos – , algumas delas ainda sobrevivem, como o muriqui-do-sul (Brachyteles arachnoides), o maior primata das Américas, e uma espécie altamente ameaçada que praticamente desapareceu do resto do estado. Esta espécie tem uma população total estimada em menos de 1.500 indivíduos e requer grandes áreas de floresta intacta para sobreviver – entre 485 e 1.200 m acima do nível do mar. Cerca de 10% desta população sobrevive na região da REGUA, onde já foram identificados pelo menos quatro grupos do primata. Uma dos objetivos da reserva é fornecer uma área cada vez mais protegida para esta espécie e garantir sua conservação no longo prazo.

A bacia do Rio Guapiaçu também serve de refúgio para flora nativa e abriga espécies ameaçadas de extinção, como a garapa (Apuleia leiocarpa); o jequitibá-rosa (Cariniana legalis), considerada a maior espécie arbórea da Mata Atlântica; o cedro-rosa (Cedrela fissilis); a guapeba (Chrysophyllum imperiale); a canudo-de-pito (Couratari pyramidata), que ocorre apenas na Mata Atlântica do estado do Rio de Janeiro; o jacarandá-da-Bahia (Dalbergia nigra); a palmeira juçara (Euterpe edulis); o emblemático pau-brasil (Paubrasilia echinata) e o cupã (Pouteria butyrocarpa), conforme censo realizado pelo Centro Nacional de Conservação da Flora do Jardim Botânico.

A zona de amortecimento em ambos os parques vizinhos à REGUA está ocupada com agricultura, pastagens, plantação de eucalipto e construções, o que resulta no empobrecimento da qualidade do habitat, isolamento de cobertura vegetal ou fragmentação pela pressão constante das bordas. Nas encostas mais íngremes, o desmatamento causa ainda erosão e perda de solo, e consequentemente também afeta a qualidade de água das nascentes nessas áreas protegidas. Prevê-se que esses problemas piorem à medida que as mudanças climáticas tornem as tempestades e as chuvas mais severas. Assim, a conversão de pastagens degradadas das encostas mais íngremes em florestas traz vários benefícios para o ecossistema e para a região como um todo. 

A agenda de conservação e restauração ecológica é, portanto, uma iniciativa que ajuda a garantir a segurança hídrica da região, evitar deslizamentos e prover outros serviços ecossistêmicos essenciais para nossa própria qualidade de vida.

Na REGUA nosso objetivo é oferecer um modelo alternativo de conservação sustentável a longo prazo. Isso envolve desde a aquisição de propriedades na bacia, a restauração e o patrulhamento florestal, até a criação de RPPNs, que permitam a consolidação de uma grande área contígua – e protegida – de floresta. 

Desde 2004, a instituição tem investido em ações ambientais como a restauração florestal e a educação ambiental. Tanto com a recuperação de áreas degradadas de encostas e de baixadas, quanto com a restauração de ecossistemas florestais e úmidos originais em Áreas de Preservação Permanente (APPs), como nascentes, beiras de rio, topos de morro e brejos.

Para isso, contamos com importantes parceiros como a World Land Trust, Petrobras Socioambiental, SOS Mata Atlântica, WWF, Iniciativa Verde, Ecosia, INEA e CEDAE.

A partir de 2013, as ações de restauração ecológica do Projeto Guapiaçu, executado pela REGUA com patrocínio do Programa Petrobras Socioambiental, priorizaram a criação de corredores ecológicos e ocorreram em três etapas: preparação da área para o plantio, plantio das mudas e manutenção das áreas. 

Para garantir o sucesso no projeto, todas as ações foram realizadas mediante planejamento prévio, levando-se em consideração as características ambientais das áreas que receberam a intervenção e indicando as espécies e os procedimentos técnicos adequados para o plantio, manutenção e proteção ao desenvolvimento das áreas manejadas. Em médio e longo prazo, deve haver o restabelecimento da estrutura, produtividade e diversidade, a fim de alcançar o máximo possível da semelhança com o que era a floresta originalmente. Para isso, é necessário considerar a alta biodiversidade e a variabilidade na estrutura e funcionamento dos processos ecológicos, que irão nos indicar os resultados e o sucesso da restauração.

A metodologia adotada no projeto foi adaptada do guia técnico elaborado pelo Pacto Pela Restauração da Mata Atlântica, com a maior parte feita como plantio em área total, ou seja, com o plantio de mudas de espécies arbóreas em toda a área a ser restaurada. Em menor escala também foram utilizadas técnicas de enriquecimento – método usado nas áreas que já possuem vegetação nativa, mas com baixa diversidade florística – e de condução da regeneração natural, sobretudo em áreas de difícil acesso – feita através do controle periódico, químico ou mecânico, de plantas invasoras para facilitar que a vegetação nativa retome, naturalmente, seu espaço.

Para levar a cabo o programa de restauração ecológica da REGUA, é utilizada mão-de-obra local, como uma oportunidade não apenas de reverter recursos para as comunidades do entorno, mas também de sensibilizá-la para a causa ambiental. Toda esta atividade capacita e gera empregos, contribui para a satisfação da comunidade, estimula pesquisas, alavanca o turismo na bacia do Guapiaçu, e serve como modelo de gestão integrada no bioma. 

Os frutos da recuperação da floresta

A REGUA é hoje uma das maiores restauradoras de ecossistemas florestais do estado do Rio de Janeiro, com 447 hectares de áreas restauradas e 670 mil mudas plantadas, com uma diversidade de mais de 500 espécies diferentes. São produzidas entre 60 e 80 mil mudas nativas por ano no viveiro da REGUA. Além disso, essas ações geram empregos diretos e indiretos, e a frente de educação ambiental gera uma crescente conscientização nas comunidades locais, principalmente entre os mais jovens e as suas famílias.

Com a proteção e reflorestamento, juntamente com o patrulhamento por guardas-florestais para eliminar a caça furtiva, a onça-parda (Puma concolor) está sendo regularmente registrada em armadilhas fotográficas.  

A cadeia florestal, que se inicia com a coleta de sementes e resulta em recobrimento de áreas degradadas e formação de florestas, está diretamente ligada ao fortalecimento dos serviços ambientais da bacia hidrográfica, garantindo uma produção de água.

Em reconhecimento ao trabalho da REGUA, o Instituto Estadual de Ambiente do Rio de Janeiro (Inea-RJ), permitiu que a reserva fosse indicada como área propícia para a reintrodução de antas (Tapirus terrestris), espécie emblemática, considerada jardineira da floresta pelo seu papel de dispersar sementes e que estavam extintas há 100 anos no estado do Rio de Janeiro. 

A iniciativa,  coordenada pelo Refauna sob aprovação do Inea,  já reintroduziu 14 antas na REGUA. Destas, cinco morreram e uma fugiu. Em contrapartida, dois filhotes nasceram na natureza e se somaram ao grupo, que tem dez indivíduos.

A REGUA é vista como parceira do Inea, do município de Cachoeiras de Macacu e das comunidades do entorno no programa de sensibilização do meio ambiente, gerando reconhecimento pelos cidadãos e sendo motivo de orgulho local. O amplo programa de recuperação de áreas degradadas fortalece a cadeia produtiva da restauração florestal e gera oportunidades de pesquisa científica. A REGUA mantém parceria com diversas universidades do Rio de Janeiro e oferece oportunidades para estudantes universitários usufruírem da infraestrutura para cursar disciplinas de campo e desenvolver novos estudos sobre o processo de reflorestamento, biodiversidade e o valor ecológico desse bioma.

A cadeia florestal, que se inicia com a coleta de sementes e resulta em recobrimento de áreas degradadas e formação de florestas, está diretamente ligada ao fortalecimento dos serviços ambientais da bacia hidrográfica, garantindo uma produção de água em quantidade e qualidade satisfatórias para suprir a demanda de abastecimento a milhões de pessoas. O processo demonstra que projetos ambientais em parceria com o poder público e outras organizações da sociedade civil, contribuem com a conservação do meio ambiente, gerando resultados duradouros e visando equilíbrio entre a conservação das espécies e uso do solo, e que traz benefícios tanto para a sua biodiversidade quanto para as populações do entorno.  A anta agradece!

As opiniões e informações publicadas nas seções de colunaseanálisessão de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site betano. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

O projeto Mata Atlântica: novas histórias é apoiado pelo Instituto Serrapilheira.

  • Nicholas Locke

    Técnico agrícola. Idealizador e fundador da Reserva Ecológica de Guapiaçu (REGUA), em Cachoeiras de Macacu, Rio de Janeiro.

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