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Entre Caatinga, Cerrado e Mata Atlântica nascem os Caminhos da Ibiapaba

Trilha de longo curso cruza 130 quilômetros de paisagens únicas entre Ceará e Piauí foi inaugurada no começo de fevereiro, totalmente sinalizada

Waldemar Justo do Nascimento Neto·Gilson Luiz Souto Mota·
17 de fevereiro de 2023·1 anos atrás

Nasceu a primeira trilha de longo curso no ecótopo triplo entre Caatinga, Cerrado e Mata Atlântica, encontro de biomas único no Brasil. A inauguração dos “Caminhos da Ibiapaba” foi realizada no último dia 4 de fevereiro. O percurso de 130 quilômetros de extensão, que fazem parte da Rede Brasileira de Trilhas, estão inteiramente sinalizados e estão inseridos na Área de Proteção Ambiental (APA) Serra da Ibiapaba, conectando em suas extremidades os Parques Nacionais de Ubajara (CE) e Sete Cidades (PI).

Para comemorar a abertura dos caminhos, foi realizado o 4º desafio Sete Cidades x Ubajara 3D, corrida de trilha vencida pelo ultramaratonista de Santa Catarina Felipe Costa. Em conversa com o chefe do Parque Nacional de Ubajara, Gilson Costa, Felipe se disse emocionado com a beleza do trajeto: “não pude evitar de pegar o celular e fazer um vídeo durante a prova para trazer mais gente do Sul para conhecer a região dessa prova sensacional”, contou o catarinense. 

A APA Serra da Ibiapaba, administrada pelo ICMBio, conta com 1 milhão e 600 mil hectares de extensão, e é uma das maiores unidades de conservação do Brasil, envolvendo 27 municípios entre o Piauí e o Ceará. Os Caminhos da Ibiapaba conta com um belíssimo e variado percurso, com uma extremidade em Piracuruca no Piauí, passando por Brasileira e São João da Fronteira, e outro extremo em Ubajara, no Ceará.

Marca das trilhas.

Os parques nacionais de Sete Cidades e Ubajara já oferecem, dentro de suas áreas, diversas trilhas de curto e médio percurso, conectando atrativos de grande beleza cênica. 

O Parque Nacional de Sete Cidades estreou na Rede Brasileira de Trilhas em 2018, com a marca do lagarto que é facilmente encontrado na região. A área é um sítio pleno de pinturas rupestres, a mais famosa delas, justamente retratando o lagarto utilizado na pegada da sinalização de suas trilhas. 

O Parque Nacional de Ubajara, por sua vez, estreou na Rede em 2019, tendo suas pegadas amarelas e pretas decoradas com a imagem do bondinho, que é a marca registrada daquela área protegida.

A trilha Caminhos da Ibiapaba potencializa os atrativos de ambos os parques ao promover a conexão entre eles, ao mesmo tempo em que fortalece os objetivos da APA Serra da Ibiapaba. A escolha do macaco Guariba da caatinga (Alouatta ululata) como marca utilizada em suas pegadas amarelas e pretas, sinalização oficial da política pública Rede Brasileira de Trilhas, foi uma forma de evidenciar que mesmo uma Área de Proteção Ambiental cumpre um papel importante na proteção da biodiversidade, chamando a atenção do público para a ocorrência não apenas desta, mas de várias outras espécies ameaçadas de extinção, e um convite a se somar na sua proteção.

No caso da Trilha Caminhos da Ibiapaba, o trajeto conecta diversas paisagens nos limites entre os biomas Cerrado e Caatinga, entrecortados por formações florestais e, tendo como ponto de chegada, uma mancha de Mata Atlântica, localizada na Serra da Ibiapaba. A base do traçado da trilha é a antiga rota dos mercadores que transportavam mercadorias do Ceará, cruzando o Piauí e seguindo para o Maranhão. Portanto, além da beleza e riqueza ecológica, o trajeto é também uma experiência histórica e cultural, que leva o trilheiro a comunidades que preservam casarios do século XVII e açudes e reservatórios, como a represa de Belo Monte.

A trilha Caminhos da Ibiapabajá está totalmente sinalizada com pegadas direcionais e pode ser percorrida a pé ou de bicicleta. Atualmente, a administração das unidades de conservação estão se coordenando com o Governo do Estado do Piauí para implementar placas de entrada na trilha, viabilizar um site e capacitar os proprietários de serviços e hospedagens ao longo do caminho. Nesse sentido, o próprio ICMBio está fazendo sua parte, pois, após anos de abandono, a instituição finalmente conseguiu viabilizar a reforma do hotel localizado dentro da unidade de conservação e deve abri-lo ao público ainda em 2023.

Foto: Divulgação.

As opiniões e informações publicadas nas seções de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site betano. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

  • Gilson Luiz Souto Mota

    Engenheiro agrônomo, especialista em Educação e Gestão Ambiental e Chefe do Parque Nacional de Ubajara.

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Comentários1

  1. Renato Sanchezdiz:

    Apenas uma Curiosidade devido ao meu interesse em Acessibilidade Arquitetônica para Ecoturismo: será que para Trilhas de Pequenos e Médios Percursos esta Preocupação em “Quebrar Barreiras” e gerar a “Igualdade de Oportunidades” foi considerada.?
    Obrigado pela atenção e oportunidade:
    Renato Sanchez (Arquiteto e Urbanista e Indigenista CAU N °A77604-1 / Goiânia – GO)