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O investimento que precisamos para o oceano que queremos

Não devemos poupar esforços para que a ciência oceânica seja impulsionada na atual Década do Oceano (2021-2030)

10 de janeiro de 2024
  • Rede Ressoa

    A Rede Ressoa é um projeto colaborativo de divulgação científica e comunicação sobre o Oceano.

  • Ana Luísa Souza

    Graduanda em Oceanografia e integrante do Programa de Políticas Públicas do IO USP.

  • Fernanda Belinazo

    Graduanda em Oceanografia e integrante do Programa de Políticas Públicas do IO USP.

“O oceano cobre mais de 70% da superfície terrestre e é o local mais desconhecido da Terra”. Certamente você já ouviu essa frase em alguma aula de geografia na escola ou programa de televisão, mas já parou para refletir sobre o quão dependentes somos dele? O oceano é fundamental para a sobrevivência, humana ou não, na Terra. Responsável por cerca de metade de todo o oxigênio disponível no planeta, oriundo da produção de cianobactérias e algas, o oceano atua também como um grande regulador climático devido a sua capacidade de capturar carbono e calor. Diante do atual cenário de ebulição climática que estamos enfrentando, isso o torna uma importante arma.

De acordo com o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, até 2021 cerca de três bilhões de pessoas dependiam diretamente do oceano para sobreviver, como povos e comunidades tradicionais, pescadoras e pescadores artesanais e populações de cidades costeiras. Em 2023, batemos a marca de 8 bilhões de pessoas coexistindo no planeta, ou seja, numa regra de três simples percebemos que quase 40% da humanidade necessita diretamente do oceano. Para além da serventia humana, em seus ecossistemas está abrigada uma riqueza e abundância gigantesca de biodiversidade.

Infelizmente, antes mesmo de conhecê-lo, estamos perdendo. Conhecendo menos de 20% do oceano e menos de 7% dele está protegido. A partir disso, compreendemos que ainda há muito para descobrir, mas teremos tempo? Ilhas de plástico no Pacífico, contaminação por vazamentos de petróleo, sobrepesca dizimando espécies de peixes, acidificação dos oceanos pelas mudanças climáticas e muitas outras pressões desencadeadas pela ação humana estão deixando o oceano doente e vulnerável. Os dados trazidos pelo Relatório Mundial sobre a Ciência Oceânica revelaram que os investimentos financeiros disponibilizados para estudos sobre o oceano estão entre 0,04 a 4% em relação às demais temáticas de pesquisa do mundo, neste ritmo, a ciência não consegue trazer os caminhos para lidarmos com essas ameaças. 

É tempo de valorizar o oceano

Frente ao desafio de buscar um oceano saudável, foi proclamada, pela Organização das Nações Unidas (ONU), a Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável (2021-2030), chamada de Década do Oceano, como plano estratégico para a priorização do conhecimento científico e a aproximação do oceano e sociedade. Essa implementação visa contribuir para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030, adotada pela ONU. Diretamente relacionado ao oceano, tem-se o objetivo 14, que é sobre “Conservar e usar de forma sustentável os oceanos, mares e os recursos marinhos para o desenvolvimento sustentável”, mas a saúde do oceano interfere em muitos outros ODS.

Para muito além de limites regionais e nacionais, a Década do Oceano traz o tema de interesse conjunto global, convocando as nações para se unirem em função dessa causa. A união é essencial para cumprir os desafios propostos e resultar em um impacto positivo no oceano. Em especial, a cooperação internacional é fundamental para a sustentabilidade do alto-mar, nome dado ao conjunto de zonas marinhas que não estão sob jurisdição de nenhum Estado e representam 2/3 da área oceânica.  

A Ciência Oceânica, pensada justamente pela necessidade de preservar o ecossistema marinho, se manifesta na concepção de que por meio desse investimento contínuo e satisfatório em infraestrutura, equipamentos e indivíduos especializados, é possível entender os complexos sistemas e serviços ecológicos. E é a partir dos avanços tecnológicos que a pesquisa científica multidisciplinar e colaborativa é alavancada e se torna influente no desenvolvimento e implementação de políticas para o oceano.

Foto: Chokniti Khongchum / Pexels

Não é uma tarefa fácil

Entretanto, promover a Ciência Oceânica custa caro devido à complexidade de equipamentos e tecnologias, por isso, é preciso que as nações estejam unidas para somar esforços e dividir responsabilidades. Segundo o relatório de ciência oceânica da UNESCO (2018), esse processo já está bem avançado e concentrado no Atlântico Norte, quando a maior parte das publicações são de organizações da América do Norte e Europa. Em contrapartida, o Atlântico Sul, apesar de possuir quase a mesma quantidade de pesquisadores voltados à temática oceano (731 no Sul e 807 no Norte), sofre com a lacuna de conhecimento sobre a região. 

Esta discrepância de produção de pesquisas no Atlântico Sul pode ser exemplificada com o caso do Brasil, o investimento para a Ciência Oceânica é de  0,03% do total disponibilizado à pesquisa no país. Em outros países utilizados para comparação, a média é de 1,7% dos recursos, isso implica dizer que temos 98% menos investimento. Esta média global já é considerada muito pequena e, se tratando de Brasil – um país com 3,6 milhões de km² de área marítima, manter os 0,03% é extremamente preocupante. 

Oportunidade de mudança

Para conseguirmos mudar esse cenário de falta de investimentos, precisamos que a sociedade civil esteja engajada para pressionar os representantes políticos a dedicar esforços para a ciência oceânica, mas, para isso, a população deve conhecer o próprio oceano. A Alfabetização Oceânica (Ocean Literacy) é o termo utilizado para o movimento e as iniciativas que buscam inserir temáticas relacionadas ao oceano nos planejamentos formais de educação, no Brasil, é mais comum ouvirmos o termo “Cultura Oceânica”. Com isso, é possível proporcionar ferramentas para as pessoas se envolverem de forma consciente em questões costeiras e marinhas e incitar, cada vez mais, a necessidade de investir em pesquisas oceanográficas. 

Se você é uma pessoa interessada sobre a Cultura Oceânica ou pelo universo marinho, mas não sabe como pode dar o primeiro passo, assine a Carta Compromisso para o Futuro do Oceano e faça parte desse movimento\!

Para saber mais sobre

Brochura da Década dos Oceanos https://www.justsuffolk.com

COI-UNESCO (2017) Relatório Global de Ciência Oceânica – O status atual da ciência oceânica em todo o mundo. In: Valdés L (ed). Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura

COI-UNESCO (2018) Roteiro revisto para a década da ONU da ciência oceânica para o desenvolvimento sustentável. No Anexo 3 do IOC/EC-LI/2. 

UNESCO (2021) Relatório de Ciências da UNESCO: A corrida contra o tempo por um desenvolvimento mais inteligente – resumo executivo. Paris: UNESCO Publishing.

Polejack, A., Gruber, S. & Wisz, M.S. Atlantic Ocean science diplomacy in action: the pole-to-pole All Atlantic Ocean Research Alliance. Humanit Soc Sci Commun 8, 52 (2021). https://www.hz181.com

As opiniões e informações publicadas nas sessões de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site betano. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

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