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A vida secreta de uma rãzinha cujo lar são as bromélias

Cientistas descrevem uma nova espécie para a ciência: uma minúscula rã que vive e cria seus filhotes dentro de bromélias no alto das montanhas capixabas

Duda Menegassi·
15 de janeiro de 2024

Dentro de uma bromélia, no alto das montanhas capixabas, vive uma minúscula rã. Com cerca de 15 milímetros – menor que um polegar – seu corpo exibe uma coloração amarronzada que se mistura à da base das folhas da bromélia e à serrapilheira. Uma camuflagem feita sob medida para evitar a atenção de predadores. A vida secreta deste pequeno anfíbio, entretanto, não passou desapercebida de uma equipe de pesquisadores que acaba de descrever a nova espécie para a ciência: a rãzinha-de-bromélia-do-garrafão.

A jornada por trás dessa descoberta começou em 2015, em uma expedição científica à Pedra do Garrafão, no município de Santa Maria de Jetibá, nas montanhas do Espírito Santo, que contou com os biólogos do Projeto Bromélias e do Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA). A pesquisa levou oito anos, que incluíram a realização de outros campos de coleta, até que finalmente houvesse informações suficientes para levantar o véu sobre esta nova espécie, Crossodactylodes teixeirai – descrita em artigo publicado no periódico internacional Journal of Herpetology

O gênero Crossodactylodes é composto por seis espécies de rãs, todas elas bromelígenas – ou seja, com vidas associadas às bromélias – distribuídas entre o sudeste e nordeste do Brasil. 

Uma das peculiaridades descobertas pelos pesquisadores é que não é em qualquer bromélia que a rãzinha-do-garrafão se instala. Ela só mora em casa com piscina, ou melhor, bromélias com tanques internos capazes de armazenar água. E escolhe aquelas mais abrigadas, dentro da floresta, sem exposição direta do sol.

A rãzinha (Crossodactylodes teixeirai) mede apenas cerca de 15 milímetros. Foto: Rodrigo B. Ferreira

A maior parte dos indivíduos adultos documentados pelos cientistas (64%) vivia em casais dentro da mesma bromélia e a maioria estava junto dos seus filhotes – ovos e girinos – num comportamento que indica o cuidado parental com seus bebês, que são criados ali mesmo, dentro dos tanques.

Em quatro plantas, entretanto, foram registrados verdadeiros albergues, com até seis indivíduos adultos – quatro machos e duas fêmeas – numa mesma bromélia.

Para além das bromélias, o lar da rãzinha é a Mata Atlântica montana do Espírito Santo, mais especificamente um fragmento florestal localizado entre 1.212 e 1.374 metros de altitude, no entorno da Pedra do Garrafão. Conhecida apenas nesta localidade, a espécie ganhou o nome de rãzinha-de-bromélia-do-garrafão (Crossodactylodes teixeirai). Enquanto seu nome popular homenageia seu domicílio, seu nome científico homenageia o herpetólogo capixaba Rogério Luiz Teixeira, que faleceu em 2015.

O habitat da rãzinha-de-bromélia-do-garrafão. Foto: Rodrigo B. Ferreira

Conhecida em uma única e restrita localidade – com área de ocupação estimada em apenas 4 km² –, os pesquisadores alertam para as potenciais ameaças de uma maior perda de habitat ou fragmentação já que a área – situada dentro de propriedades particulares – não é protegida por nenhuma unidade de conservação. 

O remanescente em que a rã-de-bromélias-do-garrafão vive já está rodeado por uma paisagem fortemente alterada pela ação humana, degradada pela agricultura e pelo turismo desordenado, com poucos fragmentos florestais sobreviventes. Os cientistas não descartam, entretanto, a possibilidade de que outras populações da espécie possam ser encontradas em outros fragmentos ao redor da Pedra do Garrafão. Por isso, eles sugerem que a rã-da-bromélia-do-garrafão seja classificada como “Deficiente de Dados”, ou seja, que requer mais pesquisa para compreender a real situação de risco de extinção.

  • Duda Menegassi

    Jornalista ambiental especializada em unidades de conservação, montanhismo e divulgação científica.

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