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Descoberta de maracujá ameaçado ganha nome indígena em aceno de resistência

O maracujá-puri foi descoberto num fragmento florestal rodeado por pastos numa área desprotegida da Serra da Mantiqueira, em Minas Gerais, e é considerado criticamente ameaçado

Duda Menegassi·
6 de fevereiro de 2023·1 anos atrás

As flores de maracujá não costumam passar despercebidas. Este foi o caso de uma espécie, ainda anônima para a ciência, que chamou o olhar de pesquisadores da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) durante um trabalho de campo nas cercanias do Parque Estadual da Serra Negra da Mantiqueira, em Minas Gerais. A flor, de filamentos brancos e roxos, com miolo verde e amarelo, definitivamente vale a mirada. O que a dupla de cientistas não sabia era que, além de bela, se tratava de uma nova espécie, a recém-batizada Passiflora purii, que ocorre apenas numa pequena porção ao sul da Serra Negra.

A descrição da nova espécie foi publicada na Revista Acta Botanica Brasilica no final do ano passado. O “maracujá-puri” ganhou este nome em homenagem à etnia indígena Purí, que originariamente habitava – e em alguns locais ainda habita – a região da Serra da Mantiqueira, e faz uma menção à resistência dessa planta recém-descrita para ciência. Apesar da vizinhança com o parque estadual, a área, em si, onde ocorre a única população encontrada do maracujá-puri, que possui menos de 50 indivíduos maduros, está atualmente desprotegida. O habitat da planta, que pertence aos domínios da Mata Atlântica, é hoje um fragmento isolado de floresta cercado por pastos, no município de Rio Preto. O local é uma propriedade privada.

“Assim como os indígenas resistem buscando resgatar a história de seu povo, os impactos antrópicos observados no local onde a P. purii foi encontrada não foram suficientes para impedir a sobrevivência e a descoberta desta nova espécie”, reflete a professora do Instituto de Ciências Biológicas da UFJF, Ana Carolina Mezzonato, uma das autoras do artigo.

Devido ao pequeno número de indivíduos e o habitat restrito – e desprotegido –, os pesquisadores sugerem que a Passiflora purii seja classificada como Criticamente Em Perigo de extinção, o grau mais sério de risco de desaparecer da natureza.

O ambiente do maracujá-puri é conhecido como nanofloresta nebular, que é considerada uma das fitofisionomias (tipo de vegetação) mais desconhecidas e raras da Mata Atlântica, e representa apenas cerca de 2,5% das florestas tropicais do planeta. Entre janeiro e fevereiro, as flores do maracujá podem ser vistas colorindo a mata e, em agosto, ela oferta seus frutos na floresta.

A planta, que cresce a cerca de 1.180 metros de altitude em um solo quartzítico que acompanha um tênue riacho, é uma prova da biodiversidade ainda desconhecida da Serra da Mantiqueira, como ressalta o pesquisador da UFJF e outro autor do estudo, Leonardo Lima. “Espero também que notícias como essas ajudem a sensibilizar a população e as autoridades locais sobre a importância da preservação de lugares tão especiais como a Serra Negra da Mantiqueira”, conta o botânico, que reforça a importância do parque estadual, criado em 2018.

O Brasil é um dos países com maior diversidade de maracujás no mundo, com mais de 150 espécies conhecidas no território. Apenas no estado de Minas Gerais, já foram identificadas 53 espécies do gênero Passiflora.

  • Duda Menegassi

    Jornalista ambiental especializada em unidades de conservação, montanhismo e divulgação científica.

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