Reportagens

A luta pela conservação da espécie de golfinho mais ameaçada do Brasil

O nome desta bióloga está atrelado a pesquisas e luta pela conservação do golfinho mais ameaçado do Brasil

Paulina Chamorro·João Marcos Rosa·
30 de novembro de 2023

A luta pela conservação da espécie de golfinho mais ameaçada do Brasil

O nome desta bióloga está atrelado a pesquisas e luta pela conservação do golfinho mais ameaçado do Brasil

Texto | Paulina Chamorro

Fotos e Vídeos | João Marcos Rosa

Quando lemos notícias sobre as toninhas, os golfinhos mais ameaçados do Brasil, as informações vem, em grande parte, do trabalho da bióloga Marta Cremer. Pioneira no estudo destes cetáceos na Baia da Babitonga, nossa personagem é uma referência na pesquisa das espécies, especialmente as menores, do boto-cinzas até a mínima toninha.

A bióloga Marta Cremer atua na pesquisa e conservação marinha há mais de duas décadas. Coordenadora do Laboratório de Ecologia e Conservação de Tetrápodes Marinhos e Costeiros da UNIVILLE, onde também é professora, ela coordena a Unidade de Estabilização de Animais Marinhos, unidade executora do Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos.

Foto: João Marcos Rosa

Coordenadora-geral do Projeto Toninhas do Brasil, ela descobriu o primeiro grupo dessa espécie a viver em um estuário, a Baía Babitonga nos anos 1990. Desde então concentra seus esforços na conservação dessa espécie, considerada o golfinho mais ameaçado de extinção no Brasil.

Estivemos com a bióloga para a segunda etapa do projeto Mulheres na Conservação, que documenta o trabalho de grandes pesquisadoras que dedicam a vida para defender espécies ameaçadas no Brasil.

Embarcamos com Marta pelo interior da Baia Babitonga, em Santa Catarina, um ambiente que encantou a pesquisadora desde a primeira vez que chegou, porque une a floresta e o mar. Descobrimos vegetações costeiras muito difíceis de se ver pelo litoral e que se conectam com espécies de fauna, compondo um conjunto delicado de vida natural.

É neste ambiente que resguarda uma espécie extremamente ameaçada no Brasil: a toninha. Um pequeno e arisco golfinho, que se distribui preferencialmente em águas costeiras marinhas, que já foi bastante comum pelo litoral, mas teve seu declínio principalmente pelo choque com a expansão urbana e o aumento pela demanda de pesca.

Para Marta,  a toninha hoje é um “símbolo de conservação e nos traz um horizonte. Para mim, ela representa não só a conservação da espécie, mas do ecossistema onde ela vive”.

Quase todos os pesquisadores destes animais começam estudando as carcaças,  animais machucados ou enredados que chegam as praias. Por isso, a descoberta de uma população única de estuário, traz energia para a pesquisa e animo para Marta Cremer.

A bióloga, que se equilibra entre coordenação de laboratórios, aulas em diferentes estágios de graduação e a pesquisa de campo, conta como é a sua trajetória na pesquisa marinha no Brasil e como as toninhas entraram em sua vida. Falamos entre navegações pela Babitonga, algumas acompanhadas de sua filha caçula, Marina, e outras com colaboradores dos projetos que ela coordena.

No ambiente megadiverso da Babitonga, ouvir uma pesquisadora que consegue integrar também olhar para a qualidade do ambiente, integrar diferentes elos de pesquisa, e abrir tantas portas para outras gerações, dá aquele empurrãozinho que precisamos sentir quando as coisas parecem mais duras.

Confira abaixo a conversa com Marta Cremer sobre o seu amor pelas toninhas e trabalho com esta espécie.

Paulina Chamorro: Marta Cremer, o que é ser uma mulher na conservação?

Eu acho que a conservação na verdade é uma preocupação, é uma coisa que deveria estar dentro do ser humano. E acho que a gente nem deveria partir para uma diferenciação de mulheres ou homens na conservação. É algo para a espécie, mas precisamos considerar a sociedade em que a gente vive.

Além dos desafios da conservação por si só, que não são poucos., ser uma mulher na conservação traz consigo outros desafios, desafio da vida pessoal, desafios da sociedade, que vê muitas vezes com estranheza o nosso trabalho, a forma como a gente se posiciona. Então isso é um elemento a mais e que talvez torne ainda mais desafiador para as mulheres terem essa atuação.

Paulina Chamorro: E quais foram os principais desafios que você teve que passar sendo uma mulher na pesquisa, sendo uma mulher nessa área?

Primeiro, eu acho que tem a questão de ser uma pesquisa num ambiente marinho. E eu acho que a atividade do ser humano no ambiente marinho sempre teve uma preponderância dos homens. É um espaço que sempre foi majoritariamente masculino. Então a gente tem esse primeiro desafio que é entrar nesse espaço, seja do ponto de vista social, em que a gente vai trabalhar em comunidades de pescadores, por exemplo. Seja do ponto de vista da própria academia, da própria pesquisa, que também traz consigo essa diferenciação, esse olhar diferente da figura feminina.

Os desafios passam pelo espaço na sociedade, por adentrar nas comunidades. Ser reconhecida como pesquisadora, ser levada a sério, receber o respeito das pessoas na sociedade por ser mulher e por estar fazendo um trabalho sério. Então a gente tem que conquistar esse espaço e conquistar esse respeito. E talvez muito mais do que os homens. Isso é um elemento a mais e que faz com que a gente realmente tenha que talvez ter uma persistência, ter um empenho maior, muitas vezes.

E não só no espaço da sociedade, das comunidades, mas no próprio espaço no meio científico, no meio acadêmico, onde esse olhar de dúvida também existe. E que muitas vezes pode restringir os nossos espaços, restringir a nossa caminhada. A gente tem aí uma questão de superação que vai além.

E depois tem a questão da maternidade que é algo muito intrínseco à mulher. Esse desafio vem junto, porque trabalhar na conservação em campo, em situações que não são muito convencionais, e muitas vezes tem que levar o filho junto para campo ou tem que administrar essa vida pessoal. E acaba envolvendo a família, essas pessoas mais próximas nessa vida, nessa escolha que a gente fez.

Paulina Chamorro: E teve momentos muito legais nessa história que, não só suas filhas, mas também as mulheres e também os rapazes da sua equipe, estão sempre entorno, estão sempre compartilhando informação. Eu queria saber se você se vê ou como você se vê inspirando novas gerações de jovens, meninas ou até da Marina e da Helena.

Eu acho que a gente tem uma responsabilidade nesse processo, por já ter feito uma caminhada. A gente acaba sendo esse apoio, sendo esse reforço.  Eu trabalho há anos aí como professora, sempre rodeada de alunos e alunas também. Então eu me sinto muito nesse papel de estar puxando essa frente e de estar criando essas oportunidades. Então mais até do que fazer pesquisa, mais do que fazer conservação, eu me vejo muito nesse papel de abrir portas, abrir oportunidades para as pessoas.

As meninas chegam na graduação com muitos sonhos, com muitos desejos e com uma preocupação grande do quanto eles são reais. Poder abrir portas para essas pessoas, para mim é algo incrível. É uma das coisas mais bacanas que a gente faz nesse meio. Então eu acho que esse é uma das coisas que pra mim é bem importante. 

Paulina Chamorro: Como a toninha, uma espécie tão ameaçada, pode garantir esse futuro? Qual é o papel da toninha nessa história?

A toninha, para mim, é uma espécie muito emblemática da conservação dos ecossistemas costeiros, dos ambientes costeiros marinhos. A toninha possivelmente já foi a espécie mais abundante de golfinho no litoral brasileiro, pelo menos do litoral sudeste-sul. A que vive mais próximo de nós, porque o ambiente dela está muito próximo das praias, dos lugares que as pessoas frequentam. Ao mesmo tempo, ela é uma das espécies menos conhecidas.

A toninha representa muito a saúde desses ambientes. E ela de certa forma é um símbolo também da conservação desses ambientes.

Então ela representa toda essa trajetória de degradação, de exploração que a gente tem feito desses ambientes e que tem levado espécies a extinção. E a toninha está nos mostrando isso, que esse é o caminho do que vem acontecendo.

Ao mesmo tempo, tê-la como um símbolo de conservação também nos traz um horizonte, então temos um rumo e, para mim, ela representa não só quando a gente trabalha com a conservação da toninha, ela não representa só a conservação da espécie, mas a conservação do ecossistema onde ela vive.

Todo trabalho que a gente faz de conservação da toninha, de busca de estratégias, passa necessariamente pela gestão dos ecossistemas marinhos como um todo. Então a gente tá falando aí de gestão dos recursos pesqueiros, da zona pesqueira, a gente tá falando de degradação dos ambientes costeiros, porque a toninha é a vítima de todos esses processos ao mesmo tempo.

Então são várias as frentes em que a gente tem que atuar se a gente quiser conservar a toninha enquanto espécie. Na medida em que a gente consegue isso, a gente tá levando junto uma série de outras espécies, que vão se beneficiar dessas conquistas, desses avanços e dessa conservação. 

Esta reportagem foi parcialmente financiada pela Fundação Toyota do Brasil e originalmente publicada em 5 de Novembro de 2021 na Ciclo Vivo.

  • João Marcos Rosa

    João Marcos Rosa é um fotógrafo brasileiro apaixonado pela cultura e vida selvagem. Jornalista por formação, é um dos sócios fundadores da Nitro Imagens e tem especial talento para contar histórias visuais ligadas à biodiversidade e à conservação ambiental.

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