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Megaflorestas podem salvar a humanidade, aponta livro de John Reid e Thomas Lovejoy

John Reid conversou com betano sobre a importância das florestas para o clima e para a sobrevivência da humanidade. Seu livro Megaflorestas – preservar o que temos para salvar o planeta, está à venda no Brasil

Redação betano·
4 de dezembro de 2023

A leitura de um livro é uma viagem em potencial. Megaflorestas – preservar o que temos para salvar o planeta, de John W. Reid e Thomas E. Lovejoy, é também uma aula de campo. As megaflorestas são as que possuem paisagens florestais intactas, livres de estradas, linhas de energia, minas, cidades e grandes fazendas, com rios, lagos, pântanos e picos de montanhas. Em cerca de 300 páginas, e com prefácio da ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, os autores ensinam que a conservação desses lugares é um dos caminhos possíveis para o enfrentamento da crise climática e da sobrevivência humana como espécie e levam o leitor a um passeio, em detalhes, pelas 5 maiores paisagens florestais intactas do mundo: Amazônia, na América do Sul; Taiga, na Europa; a Boreal, na América do Norte; a floresta do Congo, na África; e a floresta da ilha de Nova Guiné, na Oceania. 

No dia 29 de novembro, o autor John Reid desembarcou no Rio de Janeiro para o lançamento do livro, em um restaurante na Zona Sul da cidade. Em tom intimista e ao mesmo tempo firme, o economista ressaltou o porquê de lançar esse livro no Brasil. “Depois de tantos anos estudando a Amazônia e a biodiversidade brasileira, nós tínhamos um compromisso de trazer esse livro para cá”, conta.Ao lado da jornalista Sônia Bridi e da liderança indígena Beto Marubo, do Vale do Javari, John disse ainda que a foto da capa e contracapa do livro, na versão em português, foi uma experiência singular vivida por ele, no alto de uma pedra, na Amazônia

“Na contracapa tem um pedacinho de um raio que aparece. Estava vendo essa imensidade de floresta, o Rio Negro e uma chuva passando, de leste para  oeste. Pude ver a chuva caindo na floresta, e a floresta elevando a umidade para as nuvens de novo. E finalmente senti na pele o que tinha lido e entendido: de que as florestas são sistemas, e nosso planeta é um sistema. E o sistema não funciona quando você retira várias peças dele”, explica.

Da esquerda para a direita, Sônia Bridi, John Reid e Beto Marubo. Foto: Divulgação.

Os autores levam o leitor floresta adentro, com pitadas de ciência e dados para embasar a defesa de que quanto mais protegidas as megaflorestas, melhor para a humanidade e também para o equilíbrio do planeta. Mas os desafios são enormes, eles reconhecem. E indicam soluções.

“As megaflorestas precisam de mais áreas protegidas com mais financiamento e treinamento para equipes”, diz um trecho do livro. Em outro momento, os autores apontam os povos indígenas como especialistas nesse tipo de vegetação contínua. “Os povos indígenas, cuja cultura, espiritualidade e sobrevivência ligam-se às árvores, controlam cerca de um terço das florestas intactas. São os grupos que mais conhecem as matas”. Beto Marubo, liderança do Vale do Javari, segunda maior Terra Indígena do Brasil e um dos personagens presentes em Megaflorestas, falou sobre a importância do livro. Marubo, em sua fala, fez ainda memória ao indigenista Bruno Pereira e ao jornalista Dom Philipps, assassinados em junho de 2022 quando também faziam um trabalho de pesquisa e de defesa do meio ambiente nessa região, no Norte do Brasil.

“Esse livro é um instrumento a mais de informação para que as pessoas entendam por qual motivo Chico Mendes, Irmã Dorothy, Bruno, Dom e tantos outros morreram por uma causa, de uma certa forma invisível, que desperta diversos interesses. Dom, inclusive, me pediu ajuda para entrevistar indígenas de povos isolados e foi assassinado a procura da informação para o livro que ele queria escrever”, conta.

Em conversa com betano, John Reid fala sobre a importância do trabalho em rede para conseguir lançar o livro em português, os desafios para a conservação da Amazônia no Brasil e lembra do amigo Thomas Lovejoy, que faleceu em 2021, e tinha o sonho de ver a produção chegar em terras brasileiras, pesquisadas por eles por décadas. 

betano: Quais os desafios que o Brasil enfrenta para a conservação da Amazônia? 

John Reid: Das cinco florestas que a gente aborda nesse livro, o Brasil tem a floresta melhor conservada, mas tem também o enfrentamento com um desmatamento mais forte de todas as florestas pesquisadas. Essa dinâmica é a mais desafiante. Porque a floresta está se perdendo num ritmo rápido, por forças econômicas, por forças de crime organizado, e isso torna o Brasil e os outros países amazônicos laboratórios de um desafio muito grande e complexo.Tínhamos o compromisso de trazer o livro para o Brasil. Nós [eu e Thomas] temos histórias no Brasil, além de um carinho pessoal pelo país. E objetivamente o Brasil precisa ouvir as mensagens que trazemos nessas páginas. 

Qual a importância do trabalho em rede para a conservação da biodiversidade?

O livro editado em português. Foto: Divulgação.

Criar uma unidade de conservação, aprovar uma política ambiental, um projeto de um livro, essas redes são fundamentais e um desafio para a conservação da biodiversidade.Esse livro não teria chegado ao Brasil sem um trabalho em grupo. Me senti honrado de ter como parceiros o IPAM, o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, e principalmente o meu amigo Paulo Motinho, que desde o começo do desenvolvimento do livro original, foi um parceiro intelectual, de pensar temas, de tentar entender as questões mais complexas da Amazônia. Contei também com o amigo Beto Marubo, que é indígena do Vale do Javari e ao mesmo tempo que eu trabalhava no livro com Tom Lovejoy, apoiava Beto no Vale do Javari, na defesa dos povos isolados. Conversei muito com Beto sobre o livro durante essa confecção do original e uma estratégia para trazer o livro para o Brasil. E ele foi outro parceiro que teve uma visão que vai muito além da minha e contribuiu para focar em temas que para mim eram novos. E depois tem a Sonia Bridi, que conheci quando estava falando com Beto ao telefone, por vídeo. E ele passa telefone para ela que diz que gostou muito do livro, em inglês. E de lá pra cá a gente conversa sobre como trazer esse livro para o Brasil.  A ministra Marina Silva topou fazer um prefácio do livro e quando chegou seu texto, fiquei emocionado porque não só eram palavras sábias e inteligentes e profundas mas também ela tinha exemplos e comentários sobre o livro todo, vários capítulos do livro e foi uma coisa que me deixou muito feliz e me sentindo honrado de ter esse tipo de colaboração. E finalmente temos a editora Voo, que é uma editora inovadora, uma editora com um perfil de alto padrão de ética que viu o livro e comprou imediatamente a ideia e a importância do livro.

A luta ambientalista é uma causa antiga. Mas ainda é um o desafio sensibilizar as pessoas. Como você acha que o livro contribui também para que esse tema se popularize ainda mais? 

O livro começa seguindo uma garota de dois anos de idade, descalça no meio da floresta em Papua Nova Guiné. E a gente, em todo o livro, quis dar o foco nas pessoas que são dessas florestas, que vivem nelas e cujos ancestrais, pais, avós, viveram nessas florestas, e elas trazem a visão, a sabedoria, as ideias, as impressões e as formas de falar e pensar sobre natureza, até o ponto de não existir a concepção. A gente quis essas vozes num livro que também tem dados, tem referências científicas, tem todo o arcabouço de conhecimento, digamos, ocidental, para fazer uma fusão das duas coisas. Essa abordagem torna o livro mais humano e abre boas possibilidades de mostrar caminhos para resolver problemas que temos que enfrentar.

Como esse livro honra o legado do Thomas Lovejoy?

Sempre foi uma missão minha e do Tom, trazer o livro para o Brasil. O Brasil de todos os países de megaflorestas é o que mais se destaca, quanto ao tamanho da floresta tropical que tem, sua biodiversidade, os povos da floresta, e sua gente… Nós dois tínhamos décadas de trabalho no Brasil, temos amizades aqui, nós amamos esse país. Esse livro está sendo o sonho dele sendo realizado, com o lançamento de Megaflorestas, em português.

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