Reportagens

Pesquisa mapeia impactos do turismo para fauna em parque nacional

Ao longo de sete anos, os pesquisadores monitoraram como mamíferos responderam ao movimento de turistas em trilhas no Parque Nacional Cavernas do Peruaçu

Duda Menegassi·
3 de outubro de 2022·1 anos atrás

Parques são áreas protegidas que, por definição, devem ter como foco o turismo e lazer. Sem que isso afete, claro, seu objetivo primordial: a conservação da natureza. Muitas vezes, entretanto, essa equação para equilibrar o uso humano, ainda que indireto, com a proteção ambiental é feita no escuro, sem dados ou pesquisas que indiquem os possíveis impactos do fluxo turístico em uma área natural. Com isso em mente, uma equipe de cinco pesquisadores desenvolveu um estudo inédito no país com a coleta de dados sobre a fauna antes e depois da abertura para visitação.

O objeto do estudo: o Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, no norte de Minas Gerais, que abriu oficialmente para o turismo em 2015. O trabalho de monitoramento dos pesquisadores começou quatro anos antes da abertura, em 2011, e estendeu-se até 2017, ano em que o parque recebeu um público de quase 7 mil visitantes. A boa notícia é que não apenas o levantamento revelou um baixo impacto do turismo na vida dos animais, como indicou que a presença dos turistas pode estar ajudando a afastar um outro público: o de caçadores.

O parque nacional, localizado entre os domínios do Cerrado e da Caatinga, tem como principal atração as grutas e painéis de pintura rupestre. Essa visitação é feita apenas acompanhada de guias locais certificados e conta com estruturas de apoio como passarelas e estradas de acesso.

O levantamento foi feito através de armadilhas fotográficas distribuídas em 16 locais dentro de trilhas já existentes – tanto turísticas quanto não-turísticas – no Vale do Rio Peruaçu, onde hoje concentra-se o turismo no parque.

Para analisar as mudanças no comportamento da fauna com a chegada dos turistas, foram mapeadas seis espécies de mamíferos: a jaguatirica (Leopardus pardalis), a paca (Cuniculus paca), o porco-do-mato (Pecari tajacu), o veado-catingueiro (Mazama gouazoubira), o quati (Nasua nasua) e o mocó (Kerodon rupestris). Todas com no mínimo 100 registros independentes feitos na área e conhecidas justamente por serem usuárias das trilhas do parque.

“Animais como jaguatirica, porco-do-mato, paca, quati e veado-catingueiro não reduziram a ocorrência em trilhas turísticas após a visitação, e em alguns casos a ocorrência até aumentou”, destaca a ecóloga Daniele Barcelos, do Instituto Biotrópicos, autora que liderou o estudo, publicado na última semana (21) na revista científica Oryx.

A única espécie afetada pela visitação foi o mocó, roedor da Caatinga considerado Vulnerável ao risco de extinção. Com o começo do fluxo turístico, o mocó diminuiu a circulação nas trilhas usadas pelos visitantes – e aumentou o uso das trilhas não turísticas. 

Outra alteração constatada pela pesquisa foi o horário de atividades das jaguatiricas, que tornou-se mais ativa durante a noite desde o início do fluxo turístico.

Curiosamente, os mocós aumentaram sua atividade diurna nas trilhas turísticas com a vinda do turismo, algo que pode ser inclusive consequência, especulam os pesquisadores, da mudança no comportamento da jaguatirica, um dos seus predadores naturais.

Os hábitos da jaguatirica tornaram-se mais noturnos no parque após o início do turismo. Pesquisa usou registros de armadilhas fotográficas para ver como a fauna reagiu à presença dos visitantes no Parque Nacional Cavernas do Peruaçu. Foto: Divulgação

Mais turismo, menos caça?

Outra reflexão levantada pelo estudo aponta o potencial do turismo de aliado da conservação, ao multiplicar os olhos e a presença dentro da área protegida. Isso porque, inesperadamente, quatro das seis espécies-alvo apresentaram maiores probabilidades de utilização de uma trilha turística após a abertura do parque aos turistas, como o veado e o porco-do-mato.

“É possível que a visitação tenha criado uma zona em que o risco de caça furtiva seja menor, beneficiando algumas espécies. Dado que é conhecida a ocorrência de algum nível de caça furtiva no Parque, o patrulhamento não intencional de guias e visitantes pode ter causado uma redução desta atividade ilegal. atividade em áreas turísticas”, reflete o estudo.

“No geral, nossa análise mostra que a maioria das espécies não foi afetada negativamente pelo turismo e mesmo que tenhamos observado algumas alterações, elas são restritas apenas a área do parque que está aberta à visitação”, pondera o coordenador do projeto e um dos coautores do artigo, Guilherme Ferreira. 

O pesquisador ressalta também que o turismo provavelmente deixou o parque mais efetivo, já que trouxe recursos que possibilitaram a melhoria do manejo e gestão da unidade de conservação, além de ter gerado oportunidade de renda para a comunidade local.

“Além disso, quaisquer impactos negativos sobre a biodiversidade causados ​​pelos visitantes devem ser ponderados em relação aos ganhos de conservação e gestão proporcionados pelo turismo. Em nossa área de estudo, o turismo organizado trouxe, direta ou indiretamente, maior financiamento, melhoria da infraestrutura, maior reconhecimento e patrulhamento não intencional para o Parque, que juntos provavelmente melhoraram a eficácia da conservação. Além disso, o turismo está gerando emprego e renda para as comunidades locais, melhorando assim suas percepções sobre o Parque e potencialmente reduzindo quaisquer conflitos que possam afetar negativamente a biodiversidade. Esses benefícios e os resultados aqui apresentados apoiam a possibilidade de acomodar o turismo de natureza e a conservação efetiva da biodiversidade no Parque Nacional Cavernas do Peruaçu”, concluem os pesquisadores em trecho do artigo.

Para garantir que o turismo permaneça como uma atividade de baixo impacto para a vida silvestre, os pesquisadores orientam que a gestão da unidade de conservação deve observar tanto a distribuição espacial quanto a intensidade do fluxo turístico no parque. Para isso, o zoneamento e a limitação de visitantes são ferramentas estratégicas, reforça o artigo.

Os pesquisadores ressaltam ainda que a expectativa é que a visitação cresça nos próximos anos, assim como os possíveis impactos e, para isso, é fundamental um monitoramento contínuo de médio a longo prazo.

  • Duda Menegassi

    Jornalista ambiental especializada em unidades de conservação, montanhismo e divulgação científica.

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Comentários1

  1. Fernando Tatagibadiz:

    Muito bacana a matéria! Alguns destaques que considero bem relevantes nas conclusões dos pesquisadores, à luz da gestão das unidades de conservação:
    “… a maioria das espécies não foi afetada negativamente pelo turismo e mesmo que tenhamos observado algumas alterações, elas são restritas apenas a área do parque que está aberta à visitação”. De fato, a área destinada ao fluxo de visitantes representa a esmagadora minoria na área total das UC. Assim, como ressaltam os pesquisadores, “quaisquer impactos negativos sobre a biodiversidade causados ​​pelos visitantes devem ser ponderados em relação aos ganhos de conservação e gestão proporcionados pelo turismo.” Além de visitantes e condutores autorizados contribuírem para a redução de ilícitos, como a caça, o turismo com base na conservação da natureza é importante indutor de economia. Estudo mostra que cada R$1 investido no ICMBio em 2018 produziu R$ 15 em benefícios econômicos para o Brasil!
    O Brasil só tem a ganhar com a criação e o investimento na gestão das Unidades de Conservação da Natureza!