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Um futuro com ratos, morcegos, cães, gatos, gado e gente…

Nossos antepassados extinguiram 550 espécies de mamíferos em 126 mil anos. Até o ano 2100 serão mais 600, diz estudo sueco

Peter Moon·
18 de agosto de 2022·2 anos atrás

Você já comeu carne de elefante? É claro que não. Nem eu. Aliás, não conheço ninguém que o faça ou que o tenha feito. Apesar disso, pode-se afirmar que nossos antepassados, e com isso quero dizer os meus, os seus, os antepassados de todos os 8 bilhões de seres humanos adoravam tanto carne de elefante que conseguiram devorar 15 das 17 espécies que habitavam o planeta há mais de 100 mil anos. Na falta de elefantes, nossos ancestrais passaram a mastigar preguiças gigantes, tatus gigantes, cangurus gigantes, assim como dezenas de espécies de cavalos, camelos, rinocerontes, bovinos e antílopes. Ao todo, 351 espécies de mamíferos, em sua maioria da megafauna, ou seja, de grande porte, foram inexoravelmente exterminadas nos poucos milhares de anos que se seguiram à invasão, pelo Homo sapiens, da Ásia, Europa, Austrália e Américas.

Estes números constam de um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Gotemburgo, e publicado em 2020 na revista Science Advances. De acordo com os cientistas, há 126 mil anos haviam 6.065 espécies de mamíferos no planeta. Ainda restam 5.714… mas por muito pouco tempo.

Salta aos olhos o modo acelerado como as extinções aconteceram. Se a humanidade precisou de 125 mil anos para trucidar 271 espécies de mamíferos (sem falar em centenas de espécies de aves, répteis e anfíbios), apenas nos últimos 500 anos foram exterminadas outras 80 espécies! E tem mais: a velocidade com que estamos destruindo o reino animal está acelerando. A prosseguir tal ritmo de extermínio, os pesquisadores estimam que outras 600 espécies desaparecerão até o ano 2100. Ou seja, quase o dobro do que se perdeu até agora.

Desde os anos 1960, a academia se divide entre dois polos: o dos pesquisadores que atribuem a extinção da megafauna às mudanças climáticas que ocorreram com o final da era do gelo, há 13 mil anos, e o grupo que identifica o ser humano como o principal vilão desta história.

O objetivo do trabalho dos pesquisadores suecos foi determinar de uma vez por todas quem foi o responsável pela crescente extinção de mamíferos: o clima ou a gente. Os resultados são surpreendentes. Segundo o estudo, o clima não desempenhou papel relevante na extinção dos mamíferos – logo, o papel de carrasco cabe exclusivamente aos nossos ancestrais.

Para chegar a tal conclusão, os pesquisadores confrontaram o registro fóssil de 351 espécies extintas de mamíferos com o andar da colonização humana dos continentes, a partir do momento que nossos ancestrais saíram de seu berço africano, há 100 mil anos.

“A maioria das extinções ocorreu na mesma taxa de expansão humana. Essas extinções não aconteceram de forma contínua e em ritmo constante. Em vez disso, explosões de extinções são detectadas em diferentes continentes no momento em que os humanos os invadiram pela primeira vez. Mais recentemente, a magnitude das extinções causadas pelo homem voltou a acelerar, desta vez em escala global”, disse ao Eco o líder da investigação, o biólogo sueco Tobias Andermann.

O balanço da chacina

Segundo o estudo, desde o final da era do gelo desapareceram 88,2% das espécies da família Proboscidea, a dos elefantes; 73,5% das espécies da família Pilosa, das preguiças e tamanduás; 55% das espécies da família Perissodactyla, dos equinos, rinocerontes e antas; metade das espécies da família dos tatus (Cingulata); uma em três espécies de antílopes e ruminantes (artiodáctilos); uma em três espécies de cangurus e koalas (diprotodontia); e uma em cada cinco espécies de primatas e de carnívoros. Quem menos sofreu foram os roedores e os morcegos, cuja diversidade atual é de 90% com relação àquela do final do Pleistoceno, há 13 mil anos.

Como observado por Tobias Andermann, estas extinções não ocorreram de modo progressivo, mas em ondas, par e passo com a expansão humana. As 17 espécies de elefantes tinham uma distribuição global. Mas mamutes europeus e asiáticos foram extintos a partir de 40 mil anos atrás, quando nossa espécie invadiu Europa e Ásia. Elefantes anões foram devorados no Mediterrâneo e na Indonésia. Dezenas de espécies de cangurus e koalas gigantes sumiram há 40 mil anos, após a invasão da Austrália pelos ancestrais dos aborígenes. Mastodontes, gonfotérios e mamutes americanos sumiram nos dois mil anos seguintes à chegada do homem às Américas, há 13 mil anos. Este foi o mesmo destino reservado, na América do Sul, a uma dúzia de espécies de preguiças gigantes e mais de vinte espécies de gliptodontes, tatus gigantes alguns do tamanho de fuscas.

Em termos regionais, as áreas mais drasticamente atingidas foram a América do Sul e a ilha de Madagascar, justamente aquelas colonizadas mais recentemente pelo ser humano. No caso do continente sul-americano, entre 13 mil e 8 mil anos desapareceram 95% das espécies da megafauna. Já em Madagascar, invadida pelo homem há 4.500 anos, 90% das espécies de mamíferos desapareceram. Nestes dois casos, a eficácia letal da nossa espécie se deve ao fato que, ao longo de dezenas de milhares de anos, termos aprimorado nossas técnicas de extermínio. Assim, quando invadimos a América do Sul e Madagascar, não restava aos animais que lá viviam nenhuma chance de sobrevivência.

A princípio pode-se pensar que a perda de uma em cada cinco espécies de carnívoros (as famílias dos lobos, felinos, ursos, etc) não tenha sido tão dramática. Errado. Havia leões na Europa, no Oriente Médio e no norte da África; tigres de dentes-de-sabre e ursos de focinho-curto (os maiores que existiram) nas Américas; leões marsupiais na Austrália.

Todos aqueles animais magníficos eram os predadores de topo de seus respectivos ecossistemas. Sua perda é incomensurável, e eterna. Mas a humanidade parece não estar satisfeita com o estrago já causado. O pior pode estar por vir…

Um trágico futuro

Para fornecer uma base de comparação entre os efeitos das extinções de mamíferos causadas pelo homem no passado, e a crise de biodiversidade atualmente em curso, os pesquisadores recorreram a simulações por computador para tentar prever perdas futuras de diversidade.

Apenas com base nas taxas de extinções atuais, de acordo com os estudiosos ao nível global seria de se esperar uma média de 30 novas extinções de espécies de mamíferos até o ano 2100. No entanto, ao contabilizar o risco atual à biodiversidade, baseado nos dados de status de espécies ameaçadas da União Internacional para Conservação da Natureza, os pesquisadores preveem que nos próximos 78 anos entre 502 e 610 espécies de mamíferos devem desaparecer. Exemplos? Os poucos rinocerontes africanos e asiáticos que ainda restam, elefantes africanos, os tigres de bengala e siberianos, leopardos da neve, lobos guarás, ursos polares, gorilas e chimpanzés.

“Em todos os continentes, esperamos grandes perdas de biodiversidade com base no aumento esperado do tamanho da população humana, levando a taxas significativamente mais altas em comparação com o presente”, lê-se no artigo.

Segundo as Nações Unidas, em 2100 a população mundial deve atingir entre 10,5 e 11,2 bilhões de pessoas.

”O aumento do tamanho da população humana projetado para as próximas décadas sem dúvida representará um sério desafio para a futura conservação da biodiversidade na Ásia e particularmente na África”, diz Andermann.

A modelagem dos autores foi apenas até 2100. Isto não significa que a aceleração das extinções irá parar por ali. A continuar a explosão populacional e a consequente destruição dos ecossistemas, nossos netos e bisnetos acabarão por herdar um planeta muito empobrecido, no qual irão sobrar basicamente ratos, morcegos, cães, gatos, gado e gente…

  • Peter Moon

    Peter Moon é um repórter científico, historiador da ciência e pesquisador da história natural da América do Sul

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